Está a chegar aquela altura do ano em que tenho uma comichão difícil de coçar: Agendas para o próximo ano.

Para quem padece do mesmo mal que eu compreende o sofrimento: as marcas lançam os produtos, o ano começa de novo, "este ano é que vai ser! Vou me organizar e ter tudo direitinho".

E depois chegamos a Abril com 7 agendas diferentes, 4 delas por estrear e a usar post-its para as todas as notas.

Mas, dia 9 de Dezembro, irei celebrar um ano com o mesmo caderno A4, que utilizei ao longo do ano de forma regular e consistente, e por isso quero partilhar algumas das razões que contribuíram para este sucesso. Uma ressalva: este é o caderno do trabalho, em casa isto não funcionou.

Razões físicas

Eu já tive sucesso no passado com agendas tamanho A5. Tive em tempos umas Oxford, que a marca deixou de fazer, que eram grandes mas com linhas suficientes para escrever. Já testei um Jinbun Techo aqui no trabalho, que falhou redondamente, os Mr. Wonderful diários são demasiado grossos para ter aqui na mesa e escrever confortavelmente. Também o moleskine diário falhou. Por isso o tamanho A4, apesar de parecer contra-natura inicialmente pela falta de espaço na mesa, revelou-se uma bênção. É grande para escrever, fininho para ter o braço em cima, com as argolas estreitas, reduzindo a fricção de escrever perto das margens. O papel é grosso para escrever sem receio de vincar o resto do caderno. O caderno é um Make Notes de 80 folhas que comprei numa época pós regresso às aulas.

Razões mentais

Aqui aconteceu a alteração interna mais importante. Para poder ser funcional tive que me libertar de uma série de ideias formadas sobre o que eu deveria ou não ter numa agenda. Dividindo isto por miúdos:

Eu gosto de uma agenda com os dias marcados, para poder escrever em dias futuros um evento. A ideia, embora perfeita em teoria, nada me serve na prática pois todos os dias tenho que olhar para o calendário do Outlook. Se os eventos deixam de existir na agenda, para que preciso da agenda?

Um caderno para governa-los todos. Este é o meu lema desde que descobri o Bullet Journal em 2013. O processo de migração de notas e tarefas foi o que me permitiu passar de um método disperso de post-its, que desapareciam e reapareciam, para apenas um caderno (ou agenda) com todos os temas visíveis numa só página. A chave que uso é semelhante a esta (refiro-me aos quadrados):

O vídeo original ainda é o meu favorito:

Resumindo: um caderno, uma forma de manter tudo atualizado num sítio só.

E agora as duas últimas grandes transformações mentais que contribuíram para a minha consistência e que estão de certa forma interligadas.

Não sei porquê mas eu estava terrivelmente agarrada a esta ideia de histórico, de recuperação de dados, de informação que eventualmente necessária para o futuro. E por isso tentava manter as minhas agendas sem informações extra desnecessárias.

Até que mudei de emprego. E no momento de transição percebi que ninguém queria saber das minhas agendas para nada. Destruí-as. E quando cheguei ao novo emprego, não quis saber da agenda que a colega anterior tinha deixado.

Essa nova percepção, de registo efémero, fez-me questionar o porquê de precisar de um registo físico, em papel, para as minhas tarefas diárias. Se ninguém as lia, se nem eu as lia pois tudo o que é importante tenho um registo digital, para que serve as minhas agendas, afinal?

E no entanto, nem o Obsidian, nem o Notion, nem o One Note conseguem colmatar a necessidade que eu tenho de pensar com a caneta no papel. A resposta do porquê veio deste vídeo:

Ao 1.07h ela diz:

Ao longo dos anos, experimentei tantos métodos de produtividade! Todo o tipo de agendas, registos de hábitos, técnica Pomodoro, blocos de tempo, modelos do Notion… tudo e mais alguma coisa. E juro que alguns destes métodos parecem ter sido criados por pessoas com uma noção perfeita do tempo, uma capacidade de organização e planeamento impecável e vidas perfeitas. Porque, no meu caso, nunca consegui manter nenhum deles a longo prazo.
Se um sistema for demasiado rígido, sinto-me sufocada. É como se ficasse imediatamente presa dentro de uma caixa. Depois, revolto-me contra o próprio sistema e, passados uns dias, deixo de o utilizar. Mas, se for demasiado flexível, acabo por me esquecer completamente dele.

Depois ela explica o que o é o diário intersticial (se está correta a tradução, não sei). Mas basicamente é colocar por escrito o que estamos a fazer entre tarefas.

Ora, isto parece maçador e cansativo, além de supérfluo. Mas não é. Porque obriga a exteriorizar um pensamento e no momento de escrita desse pensamento obriga a focar naquele momento. Tal como acontece em meditação. Obriga a não dispersar por outras coisas.

Em resumo: a minha agenda serve para apontar as tarefas, os pendentes, as notas, o que é importante naquele momento. Mas não é um arquivo histórico. Quanto muito procuro informação do que aconteceu na última semana ou mês.

É um bem efémero, que pode ser destruído. Serve apenas para o momento presente. E por isso não tem o peso de ser apresentável e arrumado para olhares terceiros ou futuros.

Por ser assim é que passou a ser libertador recorrer frequentemente ao caderno.

Tenho o espaço que necessito para escrever as tarefas sem encolher a letra. Tenho tudo num lugar só. Tenho nele o ponto de foco quando me pedem 3 coisas em simultâneo e tenho que me lembrar de todas. Como diz a Novie by the Sea: "Em vez de te deixares levar por uma espiral de distracções, ajuda-te a regressar ao momento presente."