Para se poder participar nas comunidades digitais de leitura pode-se escrever, ou fazer um vídeo, ou gravar um podcast com a nossa opinião sobre um determinado livro, e depois dar estrelas. Normalmente de um a cinco. Assim, nesta escala reduzida de opinião indicamos a outros se recomendamos ou não o livro que terminamos de ler.
Tem sido assim desde a aurora das redes sociais.
No Goodreads ainda hoje terminar um livro significa que somos sempre confrontados com a seguinte questão: "O que achou deste livro?" e depois as estrelas, para pontuar.
Escrever a minha opinião sempre foi algo que sempre me deu muito prazer, mas, a determinada altura, parecia que tinha passado a ser obrigação. Perdi a vontade de pontuar os livros naquela escala das estrelas. Afinal,
para quê pontuar um livro?
Deixei de o fazer e sinto-me livre. Não deixei de ter opinião sobre o que lia e nada se perdeu por não pontuar.
Tudo continuou igual no meu mundo de leitura, menos a parte da interação nas comunidades digitais de leitura. Deixei de participar e foi como se tivesse desaparecido.
Parar de pontuar levou-me a questionar o "Para que é que isto serve afinal?" A quem serve esta informação, estes dados?
Nós, leitores ávidos e inocentes, sentimos que estamos a participar num ato verdadeiramente altruísta: "Aqui está, a minha pontuação! Um dia alguém vai encontrá-la e ler este livro com base nas estrelas que dei." Também é um ato performativo:
"Aqui está o que eu leio, aqui está o que eu penso. A minha opinião conta, interessa, eu sou interessante."
Mas, com alguma distância percebemos que não é para isso que as estrelas realmente servem.
Agora, após o deslumbre e entusiasmo original das redes sociais, percebemos que os dados recolhidos apenas servem para alimentar decisões futuras sobre o que publicar ou não. Por outras palavras os dados servem as editoras.
O Goodreads é detido pela Amazon. Quando foi comprado houve um misto de apreensão e entusiasmo, sim, isto vai ficar melhor porque vai entrar dinheiro, mas também um grande "oh não" eles vão fechar a plataforma.
Não fecharam mas também pouco ou nada aconteceu. O Goodreads ficou ali numa estagnação incompreensível para todos os que usam a plataforma. Porquê? Com uma comunidade tão grande, vibrante e variada, por que é que continua igual?
Simples: porque tudo o que interessa é a informação compilada que os seus utilizadores debitam. Principalmente, saber quais os que têm pontuações mais elevadas ou mais adições a estantes. E depois, replicar a fórmula dos mais lidos e pontuados. Publicar a fórmula. Fazer mais dinheiro.
Perante isto, percebi que precisava de voltar à minha forma inicial de relação com as minhas leituras. Como quero registar o que leio? Quero registar tudo ou apenas de aquilo que me agradou? Pode um livro incómodo ser um bom livro?
Estas e outras questões flutuavam de forma desordenada dentro de mim quando ouvi um conceito interessante no podcast "Sword & Laser". A Veronica Belmonte explicou que decidiu adaptar às suas leituras
A Escala de Diversão
(em inglês "The fun scale") muito usada por quem faz caminhadas e gosta de andar ao ar livre.
A escala, tal como é usada pelos aventureiros, tem 3 níveis:
Tipo 1 - Divertido de se fazer, traz boas recordações. Apetece repetir mais vezes.
Tipo 2 - Custou fazer, mas foi divertido em retrospetiva. Foi satisfatório.
Tipo 3 - Não foi divertido de se fazer e não foi divertido em retrospetiva. No entanto, dá uma excelente história.
A Verónica prosseguiu em dizer que iria adaptar esta escala às suas leituras, da seguinte forma:
Tipo 1 - Divertido de se ler e ainda bem que o li.
Tipo 2 - Não foi prazeroso de se ler, mas a longo prazo ainda bem que o li e terminei.
Tipo 3 - Não gostei de ler nem achei que tivesse valido a pena, mas agora posso participar da conversa.
Embora esta forma de classificação seja mais simples, achei que era mais completa. Porque há livros que são divertidos e satisfatórios e provavelmente até os podemos reler. Depois há livros que são difíceis e mas que passado algum tempo de os termos lido pensamos: "Valeu a pena." Por fim há livros cuja experiência é má. São difíceis de ler e não gostamos de os relembrar sequer.
Embora goste mais desta escala do que a de 5 estrelas, confesso que ainda tenho dificuldades em distinguir o tipo 2 e o tipo 3.
Para mim há livros que não são difíceis, como o tipo 2, mas também não são bons ou divertidos em retrospectiva. São apenas "meh". Onde encaixo aqui o meh? Aliás, penso que foi por causa dos livros medianos que comecei a resistir à ideia de pontuar livros. Dar valor a algo que não me trouxe valor parece-me inútil.
Ultimamente tenho pensado nos livros numa escala de "impacto".
A pergunta que faço é: "A longo prazo, olhando para trás, quais foram os livros que me causaram mais impacto?"
Vendo por esta perspetiva, sei que há uns quantos livros a que dei 5 estrelas na altura e que hoje nem me lembro dos ter lido. Há outros, que tanto pelo impacto positivo ou negativo, ficaram marcados na minha memória. Criaram uma cápsula de tempo, do tempo que vivi enquanto os lia. Esses são os livros que vale a pena destacar.